pedroflora

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A verdadeira lua no cai. ssssssss

In Rasuras on segunda-feira, 13th julho, 2009 at 4:49 PM

Ao passar o quê, se vai,

retém o que, se fica,

em espelho transmuda o ser.

Tudo aquilo que era novo

ao passar, passando sempre,

o ciclo espaça,

seguindo sóbrio e assomando sensações.

Dali a pouco vem um puto e me chama,

me chama de cético

por ser dialético.
Eu me contento com a fatia que me merece.

À mercê do tempo

e a 20 anos-luz, talvez,

de qualquer infinito azul.

Vagando insólito;

predido como quem,

em uma daquelas escadarias do Nepal

[com seus sete mil degraus]

e onde tudo é muito barato.

Desprendendo-me

a cada passo, de mim mesmo

e ascendendo-me à busca pelo céu

[mesmo que seja um fracasso]

mesmo que não tenha esperanças,

prefiro sofrer à amargura pra depois explodir

em êxtase cósmico transmetafísico.

Vou ali comprar um carro.

In Rasuras on segunda-feira, 9th março, 2009 at 11:14 PM

Teve aquela vez que o Nildo saiu pra comprar o carro. O cara juntava dinheiro há uns quatrocentos anos. Tinham acabado de inventar o arado e ele já economizava.

Escolheu a cor de cabeça mesmo, chegou, pediu, pagou e levou o carro. Saiu de lá dirigindo, pegou o anel rodoviário curtindo a rodovia. o vento da velocidade junto com o cheiro de carro novo, a brisa da liberdade esfregando nos seus óculos escuros. Pensou em viver mais quatrocentos anos pra comprar outro carro. Se bem que vão inventar outra coisa pra transportar gente, concluiu.

Há quatrocentos anos, quando começou a guardar os centavos, encontrou um carrinho de brinquedo de alguma criança fanfarrona que saiu pra brincar no DeLorean do pai. Nildo era muito jovem, e como todos os jovens, gostava de por as coisas na boca. Colocou o HotWheels na boca e junto, todas as bactérias dos 400 anos futuros. Ficou imune a doenças, não envelheceu e sobrevive até hoje, muito bem conservado.

Há cinco anos teve sua primeira gripe, ficou febril, de cama, 39 graus e sentiu que era a hora de comprar um carro. Pois agora estava dirigindo um sonho à milhões. Daí os milhões viraram mil, depois centenas, dezenas, e devagar fica quase insuportável. Não acredita. Furou o pneu. — FUROU O PNEU.

Encosta, desce do carro, abre o porta-malas zero-caeme cheio de sachês de carro novo. levanta o tapetinho. não acredita. olha de novo. CADÊ A PORRA DO MACACO!

Estava tão confuso, fora pego totalmente de surpresa, resolveu caminhar um pouco. Não quis pedir ajuda na estrada. Vá lá, um cara de trezentos anos é bastante sistemático. Resolveu voltar à pé pra concessionária. Enquanto marchava sob o sol das 9 e meia, ele pensava na incompetência daquela mocinha que lhe vendeu o carro, a princípio, uma gracinha, mas depois de dez minutos de conversa dera pra perceber que era na verdade um pé no saco e a vontade de foder acabou virando vontade de poder sair dali rápido com um carro na mão sem precisar ouvir mais nenhuma interjeição daquela vozinha irritante que concordava com tudo que ele dizia, ainda que ele falasse coisas inteiramente anacrônicas seguidas uma, da outra. Apostou que era puxa-saco do chefe, mas não acreditou que se dispusesse a trocar favores sexuais por uma escalada profissional. “Muito fresca”.

O repúdio à vendedora foi crescendo com o calor, que aumentava à medida que chegava a hora do almoço; a fome aumentava; quanto mais andasse, mais fazia aumentar a distância, lhe parecia. Tudo isso era como um fermento fazendo crescer o bolinho de intolerância dentro da cabeça do Nildo. O tipo foi remoendo a incompetência e refinando o extrato numa raiva obscura. Naquilo, não emitiu nenhum som enquanto caminhou, grunhiu todas as palavras dentro de si, sem nem um pensamento além de querer chegar logo. nem suar, suou.

Quando chegou, a mocinha saía pro almoço, eram dez pro meio dia. De longe viu o Nildo chegando, olhando pro nada, mão no bolso, a pele nas dobras do rosto ligeiramente mais brancas, o rosto parecia inchado. Inchado de calor. Nildo, por outro lado, entrou na loja e o ar condicionado lhe deu novo ânimo, estava prestes a desistir. Viu a mocinha se aproximando, limpou a garganta.

— Bom dia, seu Nildo! Em que pos…………..
— VAI TOMAR NO SEU CU! VOCÊ É UMA PUTA DUMA PIRANHA INCOMPETENTE! APOSTO QUE NÃO SERVE NEM PRA DAR O CU! VAI TOMAR NO CU, PORRA.

Saiu da recepção direto pra oficina, olhando pra frente, ninguém ousou impedir. Tomou o primeiro macaco que viu da mão do primeiro mecânico que viu sem falar nada – o mecânico nem se atrevera a recusar, também. Voltou pelo mesmo caminho.

Ali, na entrada, tudo congelado, o tempo parou, todas as pessoas com poses completamente estáticas, feições congeladas e tudo mais. a água que a mocinha tinha derramado, parou antes de cair no chão. Sentiu que era hora de fazer alguma coisa. Pôs o carrinho que tinha achado há quatrocentos anos no meio da recepção, carregou uma ou outra pessoa pro lado a fim de não atrapalhar seu movimento, voltou na oficina e pegou uma marreta. Incrivelmente, o mecânico do qual tomara o macaco não estava congelado, nem sabia que o mundo estava assim.

Nildo chamou o mecânico pra ver uma coisa. Levou-o pela mão até a recepção, tomou a marreta e pulverizou o carrinho cujas bactérias o imunizaram há tanto tempo. Feito isso, o tempo correu novamente. Nildo, já de espírito leve, levantou o macaco e devolveu pro mecânico.
— Pro inferno com essa merda. Tem um carro no Km 27 sentido Amadeu. Toma a chave. enfia ele no teu cu. ou no da mocinha aí.

Foi embora pra casa à pé, mas parou pra almoçar.

Tem que haver sangue

In Rasuras on segunda-feira, 9th março, 2009 at 7:35 PM

40 graus. Se fosse há 40 anos, ia parecer brincadeira. o asfalto derretendo, o chinelo pregando naquela pasta de piche. Sol, muito sol e nada de sombra. níveis de radioatividade no limite. Esse calor faz qualquer raiva triplicar; ódio; sangue nos olhos.

Gresko estava parado, de pé; assistiu a cena inteira assim, o coração batendo forte, respirando febril, alguma coisa incomodando suas tripas ou seu estômago, não sabia. Sentados, do outro lado da sala, os dois rapazinhos. Acusados de tentar molestar sexualmente Carmela, filha do Gresko.

O julgamento foi rápido. depois da mexida toda, começa o juiz a proferir a sentença. Sentença, o cu. Foi uma letra só, quiçá uma palavrinha, apenas. Pra piorar, como os danadinhos não consumaram o ato e tampouco têm a ficha suja, suas penas foram trocadas por cestas básicas.

A agonia do sr. Gresko era agora uma melancolia profunda. desonrado, mas ele não gritou, nem chorou. Sua filha já chorara o bastante enquanto colocavam-lhe o fêmur no lugar. E ela era uma menina de sorte, foi justo a fratura na perna que conteve o ímpeto lascivo dos jovens, não quiseram comer uma aleijada. Agora saíam de lá do tribunal com as famílias sorrindo, felizes com a nova chance, aquelas carinhas lisas e roupas bem passadas e na moda.

Gresko sentia o vento do outro lado da cara; já não eram os réus os dois bastardos, mas sim ele próprio, que quisera desgraçar a vida dos dois, pedindo 20 anos de pena. Tirar mais um filho de outro pai, causar mais dor. Pensou na consciência das mães, no olhar delas.

— Que se foda!

Foi pra casa, pegou o revólver e sentou na varanda. Naquele dia nem passarinho tinha na frente da casa. A natureza certamente desaprova o acúmulo de tanta raiva.
Passaram os dois, a pé, sorrindo.

Sete e quarenta e sete. tinha feito tanto calor o dia inteiro, as roupas já embotadas de suor, a nódoa raivesca cobrindo a mais interna camada do espírito. Ficou invisível. Atravessou a rua, não havia carros também. Caminhou calmamente atrás dos dois, chegou a sorrir, tomado de uma calma e precisão de raciocínio que só os prestes a morrer conseguem atingir.

Dois tiros. Um no meio do parietal, por trás, o outro na testa do outro, quando ele se virou. O segundo nem correu, paralisou-se. A raiva se fora. Subitamente, ficou visível outra vez.

Voltou pra casa.

Sentou na varanda. Pensou no calor. Pensou no processo. O detalhe. A sentença. Carmela, coitada. Achou que era Vito Corleone.

Tinha que haver sangue, concluiu.