pedroflora

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A reinvenção da ternura.

In 1 on sábado, 21st novembro, 2009 at 10:09 AM

— Alô?
— Marisa, onde que eu te espero?
— No Café?
— No café! Já posso sair?
— Marca aí uns cinco minutinhos; só vou trocar de roupa e já desço.
— Tá bom. Vou me arrumar e já subo.
Marisa era a personificação da paz. Sua voz, sempre úmida e fina levava Teodoro a se imaginar conversando com uma criatura encantada, mistura de anjo e fada, num corpo de mulher, com idade de menina.
Calçou os tênis, aspergiu-se com o perfume que encontrara no armário do pai – uma imitação bem feita de Azarro – e pôs-se a descer as escadas. Caminhava, e enquanto cobria o pequeno trecho que lhe separava do local combinado, preocupava em ir-se pelas sombras e em ritmo cadenciado – evitando chegar demasiadamente suado.
Tinha resolvido esperar dez minutos, e mesmo assim, pisava convicto de que chegaria primeiro ao Café, e teria que amargar alguns infinitos minutos de espera no meio daquela gente estranha. Café Careta. Gostava de chamar assim àquele lugar. Toda aquela gente dada a ser cult, em diálogos de nível intelectual muito superior ao experimentado pelos simples humanos mortais,
— Teodoro!
Pronto. Fora reconhecido. No mesmo instante armou-se de um sorriso tranquilo, quase político, e voltou-se pra cumprimentar o inquisidor. Enquanto conversava qualquer coisa inútil, consultou o relógio e pode distinguir a figura, ainda do outro lado da rua, daquela que lhe falara de modo tão doce, há exatos vinte e dois minutos.
— Achei que iria te esperar, Teo.
Mal se aproximara, e a moça já havia arrastado Teodoro pr´um estado de torpor mental que lhe transfigurava a fisionomia, e fazia com que seus pés mal tocassem o chão de ladrilhos que decotavam o recinto. A voz de Marisa ressoava perfumada, sutil. Ela olhava no olho; ele olhava de lado. Cada palavra era um despetalar macio e cada sorriso, um entardecer devagar. Seus movimentos eram a pura harmonia dos ossos e carnes… E que carnes! Aquela mão, aqueles cabelos; aquela mão… naqueles cabelos!
— Meu Deus…
O cabelo solto pendia até a altura das vértebras lombares e formava uma massa homogênea, quase loira, acorantada pelo verão. Aquilo fora golpe baixo. Soltar o cabelo assim, desavisadamente, baqueara Teodoro ao ponto do rapaz sentir a boca seca. Marisa, naquele instante, possuía o rosto mais lindo que ele já experimentara.
— Um suco de laranja — ela pediu.
— E o senhor? Perguntou o garçon.
— Um cappuccino de baunilha com crème, s´il vous plait!
Um instante de desatenção fora necessário pra trazer Teodoro ao mundo outra vez; mais alguns instantes e ele seria completamente tragado pela flamejante cabeleira doirada. Sentia a boca agreste e ansiou pelo cappuccino com creme – gostava do processo de derramar e misturar, aos poucos, o cappuccino ao leite; apreciava a consistência cremosa que o creme conferia  à bebida e gostava de sentir o vapor entrar por suas narinas.
A bebida lhe esquentara.
— Isso deixa um homem mais feliz no fim do dia! bradou Teodoro. Marisa limitou-se a sorrir docemente.
Sentia-se forte, de repente. Saíra do transe cósmico que lhe prendera à suavidade, à delicadeza da moça. Seria um bom cappuccino aquilo o que ele precisava? Quis recitar um poema.
— Sou toda ouvidos — derreteu-se. Era esse jeito de falar, essa ternura que lhe pegava pelas pernas e lhe colocava upside down. Totalled.
Sem recair, porém atento a todos os espasmos da flor que despetalava à sua frente, desatou Teodoro em cantarolar rimas e versos. Não parava nem pra respirar; queria impressionar; e estava funcionando. Marisa pedia mais, queria mais. Ela sorria e ele exibia suas habilidades verborrágicas; galanteava sublimnarmente, fazendo Marisa suspirar… as pernas já trêmulas, os olhos sorrindo, as mãos inquietas e os lábios apertados, prontos pra entreabrirem-se em riso ao ponto final de cada poesia.
Naquele pique, parecia que iria falar por horas. Todos os poemas que lembrasse, todos os que inventasse, tudo aquilo que pensasse, usaria pra conquistar a mulher-menina que lhe hipnotizava, parada, à sua frente. Sentiu então outra vez o chão distante, baixo, e flutuou. Continuava a recitar, cada vez menos sóbrio, cada vez mais absorto no personagem que encarnava naquele momento. Por um segundo, sentiu que o desejo vem como vai um balão de praça solto por uma criança distraída. É imparável. Uma vez desperto, está feito; sobe, sobe, sobe e continua subindo até explodir, já em altitudes estratosféricas. E ele queria explodir; subiu tão alto que pôde comer uma nuvem. E cantou… cantou tão alto que se fez ouvir em outras galáxias. Agora era balão cheio d´água, prestes a romper, reluzente! Túrgido.
De tão alto, nem percebeu os vários pontos finais que recitara. A tarde havia passado, e com ela foi-se o calor e a agitação. A noite chegava clara e fresca, a cidade rescendia à chuva. — Vamos? Tenho que buscar minha mãe. Quem sabe a gente topa mais tarde?
Pagaram a conta e seguiram juntos, um admirando o outro, recapitulando o gostoso encontro vespertino até a primeira esquina. A partir dali, Teo seguiu sozinho. Um último olhar. Um último suspiro. Apenas murmurava, ainda embriagado:
— Aquele que inventou o vocábulo TERNURA – tão apaixonante adjetivo – reconsideraria, qualquer que fosse a tradução que julgasse pertinente ao verbete em questão, se pudesse vislumbrar o jeito, o olhar, o riso, o simples existir de Marisa, a menina-flor a entardecer devagar nos dias de verão.

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Smells like teen spirit.

In 1 on terça-feira, 10th novembro, 2009 at 4:22 PM

De tarde o vento entra pela janela da sala e eu brinco de sentir o cheiro dela em mim. Vem da minha blusa, isso eu sei; procuro no peito, procuro na barra; procuro na manga, encontro na outra um resto de cheiro que ainda, valente, teima e não quer largar a trama.

O silêncio

In 1 on quarta-feira, 4th novembro, 2009 at 1:24 PM

Olhos de pôr-do-sol
Cabelos crepusculando
Falava como o silêncio
E o dia foi esquentando
Gente esperando na praça
gente no palco cantando
falantes, como silêncio
Cabelos crepusculando
Encosto.
Encosta também.
Ouve mais uma canção.
É linda. Aposto que tem
um cheiro pra cada estação
quero-te em mim, primavera
pra cantar com violão
Nem me importa o silêncio
Falar não precisa não
No fim eu te enxergo por dentro
Pensamento. Transmissão.
Nunca pensei que era tanto
e agora sempre que eu lembro é mais
Falante como o silêncio
Cabelos crepusculando

Foi tipo morder uma nuvem
Explica talvez
Silêncio se fez
novamente nós mudos
Outra vez.