pedroflora

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A flor-de-maracujá

In Teodoro Clark on segunda-feira, 16th março, 2009 at 3:10 PM

Conheceu ela num show. Foi ela quem contratou a banda. e essa história é sobre como a gente perde uma oportunidade duas vezes.

No dia da festa, acordou cedo, trocou as cordas do violão e subiu pra almoçar com a vó. Fez o soundcheck no começo da noite, como sempre, muitissíssimo cansativo, operadores incompetentes, discussões com os membros da própria banda – era aniversário da sua mãe e ele queria passar na casa dela antes de se aprontar pro show. Conseguira uma carona de volta com um desses “amigos” de banda, um cara sem auto-estima suficiente pra gritar com a própria voz, mas com muito, muito dinheiro no bolso. Os minutos, cada vez menores, passavam cada vez mais rápidos. Já tinha pouquíssimo tempo pra se aprontar. Certamente iria chegar um trampo na hora do show e seria mais uma daquelas apresentações medíocres. Na verdade, o público nem perceberia, era mais uma comparação pessoal. O motorista ia guiando o carro ganhado do pai com o braço na janela, ouvindo Sublime, dizendo que aquilo era o melhor som do mundo e deu uma de Tiger Woods – pegou todos os buracos no asfalto numa sequência de 200 metros; um pneu furado era o mínimo de estrago. Puta merda era o mínimo de indignação.

Passou na casa da mãe correndo, deu um beijo nela, comeu um picadinho de carne, especialidade da velha e foi pro esgoto musical se encontrar com os companheiro e seguir pra tocar.

Chegou pra tocar deu de cara com ela. Olhos verdes. Nem percebeu sua cara, que era como se ela sorrisse para um espelho e ele fosse o espelho. Um vestido azul desses que fazem carinho nas mãos. Primavera nos dentes, outubro acabava de começar.

O show rolou perfeito, a banda super entrosada; todos com fome de sangrar os ouvidos – deles e do público, que gostava bastante.

Na semana seguinte, deu um jeito de ir se aproximando dela. Teve certeza de que a queria demais quando viu uma foto dela na internet, no dia da festa, com aquele vestido azul. Quis demais. E fez daquilo uma aposta pessoal. Um cantor de rock que escolhe na platéia a pequena mais bonita pra se satisfazer.

Dois shows no mesmo dia; nunca tinha encarado uma dessas e ia ter que ralar. A banda ia crescendo, o negócio ia ficando bom. Pra melhorar, ela apareceu no show. Bebeu demais, pediu uma música. Ele aceitou, trocou por um beijo. Depois do show, ficou por ali, até ela pedir pra ir no banheiro, já colocando a mão na boca, com ânsias. Voltou, e nem parecia que foi. Deu nele mais um beijo e despediu-se. Ele, como não podia deixar de ser, apaixonou-se. Quis vê-la todo tempo e já dava sinais de um romance. Na época ele já tinha seus 18 e ela no segundo ano de Direito. Passava quase todo dia na faculdade dela, a levava pra casa a pé e ela achava isso romântico. No primeiro natal que passaram juntos, não tinha ninguém na casa dele e ele aproveitou-se da situação pra apagar o fogo dela – o natal dos dois era feito de uma via sacra na casa de vários parentes e eles dispunham de pouco tempo pra si, juntos. resolveram, portanto, aproveitar da melhor maneira possível. E desse jeito seguiu-se um ano inteiro de calor lascivo, amor juvenil e irresponsável; ela chegava lá fácil com ele e ele aproveitava disso.

No final do segundo ano de namoro, a coisa toda começou a esfriar, não trepavam mais em qualquer lugar e ele já sentia vontades de estar com outra, mesmo estando com ela, e ela fazia tudo pra ele, sabia de todos os seus gostos e preocupava em satisfazê-los. Foi mais ou menos nessa época que Teodoro saiu pra caminhar sem direção, pela primeira vez.

A festa era de um amigo do baterista, aniversário, open bar; começara na hora do almoço, agora o sol já ia pro seu lugar das 15h. Muita gente que ele não conhecia, de uma turma que ele não conhecia e ail no meio, uma garota de cabelos lisos na altura dos ombros, com mechas californianas, vermelhas, olhos um pouco puxados, blusa polo e all star. Era uma beleza discreta, mas forte, muito marcante. Algúem apareceu com um violão, ele pediu pra tocar. Tocou umas músicas que não tocava há muito e sentiu bem por isso. Estava revisitando um pedaço de si que gostava: solteiro, ainda que por horas, trocando olhares com uma mulher que lhe agradava, bebendo cerveja, tocando e ouvindo músicas que cresceram com ele. Foi ficando bêbado e, logicamente, perdendo os freios.

Ele já havia declinado várias chamadas da namorada e agora estava refletindo na possibilidade de sair ileso de uma noitada longe dela; Saíram juntos da festa, passaram na casa do Teodoro porque ele queria trocar de camisa. Mostrou a casa pra eles e os deixou à vontade enquanto trocava de roupa. Enquanto isso, o celular tocava sem parar; ele não atendeu nenhuma. Tocou o telefone de casa, ele também não atendeu. Sabia que era Clara. Jogou o perfume pra cima e entrou debaixo do esguicho; chamou Alice, a amiga e um colega de trabalho pra descer. Iriam pra uma boate recém-inaugurada onde tocaria uma banda de rock. Desceram as escadas e Teo sentiu um frio na barriga, uma sensação que algo estava prestes a acontecer e gostou de sentir-se vivo novamente.

Clara tentou ligar durante todo o dia pro namorado, mas ele recusara todas as ligações, simplesmente não a atendera. Gostava dele, respeitava-o por ser tão novo e ainda assim tão maduro e inteligente. Nos últimos tempos as coisas não andavam bem entre os dois, mas ela não o culpava por isso. Porém, naquele sábado, ela queria especialmente ficar um pouco com ele; acordara feliz, alegremente carente e esperou até depois do almoço pra lhe telefonar pela primeira vez, sem resposta. Ela pensou que ele estava dormindo; resolveu ligar depois, e retornou as três da tarde: nada de alô. Pra ela o copo estava sempre cheio, pois que imaginou que Teo estava com o celular longe de si e, portanto, não escutava o danado tocar. Foi ficando de noite e ela solitária. Tomou banho, lavou bem os pés, o cabelo de cachos semilouros e de curvas suaves, que contrastavam com sua pele morena e eram acentuados pelo contorno sensual de seu corpo. Aprontou-se, vestiu-se linda, borrifou-se com o perfume que ele gostava, pegou as chaves do carro e saiu de casa. Foi beber uma cerveja, trocar sentimentos por bebida. Depois da segunda, criou coragem, pediu a terceira long neck e entrou no carro decidida a ir buscá-lo em casa, uma surpresa. Parou o carro quase na porta da casa dele, que ficava no meio do quarteirão e da esquina decidiu que ia tentar ligar mais uma vez pro celular do Teo, se não atendesse, ia ligar no fixo.

Enquanto abria o portão, Teodoro sentiu o telefone parar de vibrar. puxa vida, tinha colocado no silencioso. Queria que ela parasse de ligar pra ele. queria que compreendesse que ele não estava pra ela naquele dia, que arrumasse o que fazer, sem ele. Sentiu também, entre os olhos, no meio da cabeça, uma dor, daquelas que vêm quando você bebe o dia inteiro, fuma bastante e não come nada.

Abriu o portão, saiu primeiro. Olhou pra cima em direção à esquina e não acreditou. O celular desistindo de vibrar e ela guardando o aparelho dela na bolsa, tipo quando você dá de cara com uma pessoa na qual está falando no celular, só que ao contrário. Soltou um gemido, enquanto ela fechava a bolsa e levantava os olhos pra ele: — oi, amor!

Veio andando de encontro a ele e beijou-o nos lábios. Ele, sem reação, mal retribuiu o beijo. Os olhos dela, fechados pro beijo, agora se entreabriam e encaravam os olhos de Teo, lentamente desviaram o foco pra porta logo atrás do casal (!) de onde saíam Alice e a amiga dela, seguida por último do colega de trabalho.

— Essas duas PIRANHAS estavam aí? Por isso você não me atendeu! Teo! Disse isso já com fúria nos olhos. Desgrudou-se dele e a long neck que trazia na mão, ela arremessou na rua. A garrafa caiu espatifando-se e ela nem aí. Tentava desesperadamente expressar seu desapontamento, sua insatisfação, sua carência e chegou a quase odiá-lo por fazê-la passar por situação tão embaraçosa.

Teodoro quando viu a garrafa explodindo no asfalto, sentiu uma repulsa tão grande que nem quis discutir. Virou-se e pediu que Alice mais os dois fossem sem ele, que ele os encontraria mais tarde, o que era mentira, mas sentiu-se tentado a provocar Clara, diante aquela demonstração de descontrole emocional. A dor de cabeça dele agora já incomodava, cada grito dela, cada pensamento seu era uma punhalada entre os olhos, no meio da cabeça. — Fala baixo, por favor – disse ele, demonstrando uma fisionomia impassível de quem não quer soar arrogante, porém, definitivamente, fala sério. Não queria discutir. Queria que ela fosse embora naquela hora mesmo, e não voltasse, tampouco lhe telefonasse. Escutou calado a toda verborragia dela, e teve raiva da pessoa em que ela se transformava quando bebia, ainda que uma só garrafa de cerveja. Inevitavelmente, pensou em todas as qualidades negativas que a acompanhavam; pensou que isso não importava quando a viu pela primeira vez, na verdade isso nem existira, naqueles tempos. Pensou em Alice, todo o mistério, a personalidade forte, as surpresas de um novo desafio. A voz de Clara pronunciava palavras irreconhecíveis, como um dialeto romeno carregado de sotaque, aquilo foi cansando Teo de sobremaneira que logo se viu flutuando em direção ao seu apartamento no terceiro andar, olhando pra baixo, ainda sem entender por que Clara estava falando uma língua tão incompreensível, tão nervosa. Foi levitando pra cama, tombou deitado sobre os lençóis desarrumados, a cabeça ainda sendo martelada, uma tristeza misturada com ansiedade e dormiu. Quando acordou, não teve remorso, não quis ligar pra ela. Havia cansado daquilo.

E foi assim que ele perdeu pela primeira vez.

(continua).

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Vou ali comprar um carro.

In Rasuras on segunda-feira, 9th março, 2009 at 11:14 PM

Teve aquela vez que o Nildo saiu pra comprar o carro. O cara juntava dinheiro há uns quatrocentos anos. Tinham acabado de inventar o arado e ele já economizava.

Escolheu a cor de cabeça mesmo, chegou, pediu, pagou e levou o carro. Saiu de lá dirigindo, pegou o anel rodoviário curtindo a rodovia. o vento da velocidade junto com o cheiro de carro novo, a brisa da liberdade esfregando nos seus óculos escuros. Pensou em viver mais quatrocentos anos pra comprar outro carro. Se bem que vão inventar outra coisa pra transportar gente, concluiu.

Há quatrocentos anos, quando começou a guardar os centavos, encontrou um carrinho de brinquedo de alguma criança fanfarrona que saiu pra brincar no DeLorean do pai. Nildo era muito jovem, e como todos os jovens, gostava de por as coisas na boca. Colocou o HotWheels na boca e junto, todas as bactérias dos 400 anos futuros. Ficou imune a doenças, não envelheceu e sobrevive até hoje, muito bem conservado.

Há cinco anos teve sua primeira gripe, ficou febril, de cama, 39 graus e sentiu que era a hora de comprar um carro. Pois agora estava dirigindo um sonho à milhões. Daí os milhões viraram mil, depois centenas, dezenas, e devagar fica quase insuportável. Não acredita. Furou o pneu. — FUROU O PNEU.

Encosta, desce do carro, abre o porta-malas zero-caeme cheio de sachês de carro novo. levanta o tapetinho. não acredita. olha de novo. CADÊ A PORRA DO MACACO!

Estava tão confuso, fora pego totalmente de surpresa, resolveu caminhar um pouco. Não quis pedir ajuda na estrada. Vá lá, um cara de trezentos anos é bastante sistemático. Resolveu voltar à pé pra concessionária. Enquanto marchava sob o sol das 9 e meia, ele pensava na incompetência daquela mocinha que lhe vendeu o carro, a princípio, uma gracinha, mas depois de dez minutos de conversa dera pra perceber que era na verdade um pé no saco e a vontade de foder acabou virando vontade de poder sair dali rápido com um carro na mão sem precisar ouvir mais nenhuma interjeição daquela vozinha irritante que concordava com tudo que ele dizia, ainda que ele falasse coisas inteiramente anacrônicas seguidas uma, da outra. Apostou que era puxa-saco do chefe, mas não acreditou que se dispusesse a trocar favores sexuais por uma escalada profissional. “Muito fresca”.

O repúdio à vendedora foi crescendo com o calor, que aumentava à medida que chegava a hora do almoço; a fome aumentava; quanto mais andasse, mais fazia aumentar a distância, lhe parecia. Tudo isso era como um fermento fazendo crescer o bolinho de intolerância dentro da cabeça do Nildo. O tipo foi remoendo a incompetência e refinando o extrato numa raiva obscura. Naquilo, não emitiu nenhum som enquanto caminhou, grunhiu todas as palavras dentro de si, sem nem um pensamento além de querer chegar logo. nem suar, suou.

Quando chegou, a mocinha saía pro almoço, eram dez pro meio dia. De longe viu o Nildo chegando, olhando pro nada, mão no bolso, a pele nas dobras do rosto ligeiramente mais brancas, o rosto parecia inchado. Inchado de calor. Nildo, por outro lado, entrou na loja e o ar condicionado lhe deu novo ânimo, estava prestes a desistir. Viu a mocinha se aproximando, limpou a garganta.

— Bom dia, seu Nildo! Em que pos…………..
— VAI TOMAR NO SEU CU! VOCÊ É UMA PUTA DUMA PIRANHA INCOMPETENTE! APOSTO QUE NÃO SERVE NEM PRA DAR O CU! VAI TOMAR NO CU, PORRA.

Saiu da recepção direto pra oficina, olhando pra frente, ninguém ousou impedir. Tomou o primeiro macaco que viu da mão do primeiro mecânico que viu sem falar nada – o mecânico nem se atrevera a recusar, também. Voltou pelo mesmo caminho.

Ali, na entrada, tudo congelado, o tempo parou, todas as pessoas com poses completamente estáticas, feições congeladas e tudo mais. a água que a mocinha tinha derramado, parou antes de cair no chão. Sentiu que era hora de fazer alguma coisa. Pôs o carrinho que tinha achado há quatrocentos anos no meio da recepção, carregou uma ou outra pessoa pro lado a fim de não atrapalhar seu movimento, voltou na oficina e pegou uma marreta. Incrivelmente, o mecânico do qual tomara o macaco não estava congelado, nem sabia que o mundo estava assim.

Nildo chamou o mecânico pra ver uma coisa. Levou-o pela mão até a recepção, tomou a marreta e pulverizou o carrinho cujas bactérias o imunizaram há tanto tempo. Feito isso, o tempo correu novamente. Nildo, já de espírito leve, levantou o macaco e devolveu pro mecânico.
— Pro inferno com essa merda. Tem um carro no Km 27 sentido Amadeu. Toma a chave. enfia ele no teu cu. ou no da mocinha aí.

Foi embora pra casa à pé, mas parou pra almoçar.

Tem que haver sangue

In Rasuras on segunda-feira, 9th março, 2009 at 7:35 PM

40 graus. Se fosse há 40 anos, ia parecer brincadeira. o asfalto derretendo, o chinelo pregando naquela pasta de piche. Sol, muito sol e nada de sombra. níveis de radioatividade no limite. Esse calor faz qualquer raiva triplicar; ódio; sangue nos olhos.

Gresko estava parado, de pé; assistiu a cena inteira assim, o coração batendo forte, respirando febril, alguma coisa incomodando suas tripas ou seu estômago, não sabia. Sentados, do outro lado da sala, os dois rapazinhos. Acusados de tentar molestar sexualmente Carmela, filha do Gresko.

O julgamento foi rápido. depois da mexida toda, começa o juiz a proferir a sentença. Sentença, o cu. Foi uma letra só, quiçá uma palavrinha, apenas. Pra piorar, como os danadinhos não consumaram o ato e tampouco têm a ficha suja, suas penas foram trocadas por cestas básicas.

A agonia do sr. Gresko era agora uma melancolia profunda. desonrado, mas ele não gritou, nem chorou. Sua filha já chorara o bastante enquanto colocavam-lhe o fêmur no lugar. E ela era uma menina de sorte, foi justo a fratura na perna que conteve o ímpeto lascivo dos jovens, não quiseram comer uma aleijada. Agora saíam de lá do tribunal com as famílias sorrindo, felizes com a nova chance, aquelas carinhas lisas e roupas bem passadas e na moda.

Gresko sentia o vento do outro lado da cara; já não eram os réus os dois bastardos, mas sim ele próprio, que quisera desgraçar a vida dos dois, pedindo 20 anos de pena. Tirar mais um filho de outro pai, causar mais dor. Pensou na consciência das mães, no olhar delas.

— Que se foda!

Foi pra casa, pegou o revólver e sentou na varanda. Naquele dia nem passarinho tinha na frente da casa. A natureza certamente desaprova o acúmulo de tanta raiva.
Passaram os dois, a pé, sorrindo.

Sete e quarenta e sete. tinha feito tanto calor o dia inteiro, as roupas já embotadas de suor, a nódoa raivesca cobrindo a mais interna camada do espírito. Ficou invisível. Atravessou a rua, não havia carros também. Caminhou calmamente atrás dos dois, chegou a sorrir, tomado de uma calma e precisão de raciocínio que só os prestes a morrer conseguem atingir.

Dois tiros. Um no meio do parietal, por trás, o outro na testa do outro, quando ele se virou. O segundo nem correu, paralisou-se. A raiva se fora. Subitamente, ficou visível outra vez.

Voltou pra casa.

Sentou na varanda. Pensou no calor. Pensou no processo. O detalhe. A sentença. Carmela, coitada. Achou que era Vito Corleone.

Tinha que haver sangue, concluiu.